Faz-se tarde
Não foi. O que parecia que ia ser não foi. Dado que até agora não foi, nem isso nem nada, a pergunta que fica é se alguma vez vai ser. Isso ou qualquer coisa.
E não é já tardíssimo?
Não foi. O que parecia que ia ser não foi. Dado que até agora não foi, nem isso nem nada, a pergunta que fica é se alguma vez vai ser. Isso ou qualquer coisa.
E não é já tardíssimo?
Fica assim claro que o caos não é uma estratégia. Mais, o que de bom tem é perigoso. Adia o desenlace. Arrasta-o.
De manhã, no Cais do Sodré, o comboio vomita pessoas como se fossem uma doença; vai-as acumulando, como bactérias, de Cascais a Algés mais ou menos. A partir de Belém começa a dar-lhe uma comichão e coça-se e cospe e sua gente, de Alcântara até Lisboa.
Apesar de conseguir, ao contemplar o que foi a minha vida até agora, orgulhar-me uma longa e consistente série de monumentais falhanços, o que curiosamente não consigo é localizar o momento exacto em que as coisas começaram a dar para o torto.
Muito contribuiu o facto de só muito tarde, demasiado tarde, me ter apercebido que essas derrotas eram como que uma linha genealógica, cada uma delas germinando as seguintes e assim de seguida, exponencialmente. Os pequenos rebentos de sucessos que ocasionalmente despontavam eram abafados sem apelo nem agravo pela inevitável progressão da árvore da mediocridade.
Seja como for, a semente primordial ficar-me-há, me parece, para sempre desconhecida. Alguma falha minha, suponho.
Abri a porta por acaso, por estar ali. À minha frente estava um homem muito direito, segurando uma garrafa embrulhada na mão esquerda e estendendo-me a direita, sorrindo.
“Boa noite. Sou o Tiago. Tenho 28 anos e sou inocente”, disse.
Na altura não me espantou; se bem que ainda estivéssemos nos preliminares do jantar, já todos os convivas falavam mais alto do que o costume e passavam pelos corredores, despreocupados, com um copo na mão, balançando, por enquanto suavemente, ao som da música. Eu estava entre conversas, entre bebidas, entre divisões da casa e entre estados de espírito. Registei a singular apresentação num vácuo mental, sem contexto algum. Só muito mais tarde me lembrei.
Apertei a sua mão estendida, murmurando “… ‘to prazer”. Hoje é do sorriso que me lembro melhor, entre o ingénuo e o sarcástico, e da maneira aparentemente encantada com que analisava o hall de entrada, paredes, quadros e teto. Fechei a porta e esperei que avançasse mas ele ficou ali, à espera de qualquer coisa.
“Entre, entre” disse-lhe, empurrando-o suavemente em direcção à sala. A princípio resistiu ao meu levíssimo toque, mas depois lá começou a andar em direcção à sala da qual emergia nesse instante a nossa anfitriã, rindo-se de qualquer coisa que alguém dissera.
“Tiago!” exclamou “que bom, vieste!”. Abraçou-o com força sem que ele, por um momento que fosse, abandonasse o seu sorriso ou correspondesse ao abraço. Limitou-se a recolher os braços para junto do corpo, incluindo a garrafa, não os usando para abraçar a Teresa, que não pareceu estranhar. Enlaçando depois o seu braço no dele apontou para mim, disse “Leo, Tiago, Tiago, Leo. Pronto, estão apresentados.” Desenlaçou-se da Teresa para me estender a mão outra vez, que eu apertei. O sorriso manteve-se, como que se lhe estivesse pintado na cara.
A Teresa riu-se do nosso desconcerto, cientes que estávamos de nos estar a repetir . “Precisas é de beber para desanuviar essa timidez, vais ver que já te passa. Leo, serve-lhe qualquer coisa acolhedora, já conheces a casa, se fizeres favor…” Acendeu um cigarro e olhou de relance para o espelho, perdendo durante um milésimo de segundo a postura alegre que ostentara. Durante esse imperceptível partícula de tempo avaliou-se com um olhar duro, desiludido e cansado. O momento passou. De novo divertida, observava-nos.
“O que é que bebes?” perguntei-lhe em direcção à cozinha, para onde pareciam ter afluído todos os presentes numa nuvem de fumo do tabaco encostada ao tecto até meia altura. O barulho das conversas cruzadas era ensurdecedor. Pouco habituado que estava aos jantares da Teresa, não liguei muito e fui directamente ao balcão onde estavam as garrafas e o balde do gelo. Ele ficou à porta, sorrindo com o mesmo sorriso e acenando levemente a cabeça para cada uma das pessoas à vez, agarrando, pareceu-me com mais força, a garrafa embrulhada, murmurando quase que como para si próprio “olá, boa noite, Tiago, boa noite, Tiago, olá, boa noite, …”