Alguém?
Hoje houve umas eleições e alguém é Presidente da República.
Por favor alguém me explique porque é que isto é tão importante. Juro a pés juntos que não estou a tentar ser cínico.
O que há de tão enorme nestas eleiçõs (para não falar de todas as outras) que justifique a barragem de notícias dos últimos meses, de tão enorme que vá mudar a minha vida e para que não me acusem já de egoísmo, de tão enorme que vá mudar a vida de seja quem for? Amanhã é um dia diferente? E daqui a um ano? E daqui a dois? Não é tudo igual? Não é?
Não só qualquer taxista mínimamente orgulhoso da sua profissão dirá dos políticos que "esquerda, direita, esses gajos são todos iguais, querem é o poder", como eu normalmente lhes dou razão. E encolho os ombros, penso que tudo isso nada me é, que até vergonha tinha de ser político e que se não estou contente com uns então é só votar noutros.
Todas as campanhas políticas lembram-me um reality-show, ou seja qualquer coisa de vil. Sinto um tal embaraço pelos participantes que me falta o ar. Facto é no entanto, que sem público também o reality-show não sobrevive. Extrapolando um nadinha mais este (parco) raciocínio, poderiamos dizer que o reality-show é o conjunto da emisssão, do seu público, da imprensa que fala do show, do público que lê essa imprensa, e assim ad eternum. O sucesso da emissão não se mede por ser mais ou menos "real", não, mede-se pelo tamanho da bola de neve que se gera à sua volta.
O que eu estou a tentar dizer com todos este discurso atrapalhado é que somos todos cúmplices até quando dizemos mal. Não existe isso de dizer mal da televisão, de fazer "crítica construtiva". Pôr essa quantidade de energia, seja ela negativa positiva ou neutra, a circular é sinónimo de preservação, mais, de validação ou até defesa do sistema.
Existe uma diferença entre isto e o que se passou nos últimos meses? Sim? Porque é que eu não a consigo ver? Porque é que todo este circo que me antes me provocava escárnio faz agora crescer em mim uma vaga de angústia, desespero e tristeza tão grande?
Agonia-me pensar o quão fácil fui de convencer, estes anos todos, que eu era uma parte necessária do processo, nem que fosse como contrapeso. Quão fácil foi agarrarem-me pela vaidade, incitando-me a declamar, cada vez mais alto e mais forte, a minha integridade e o meu altruísmo.
Tu que percebes disto Paulo, sabes?
