Eu não
"há minutos mais curtos do que outros, não são todos iguais. Nem na duração, nem na quantidade de informação de que estão grávidos".
Este era o tipo de frase que eu deixava sobre a mesa de um qualquer jantar sabendo de antemão que ia ser percebida de uma das muitas maneiras erradas de a perceber. Aliás, e isso eu sabia, a confusão era inevitável por ter sido formulada uma opinião incompleta e impulsiva num tom de voz de afirmação definitiva, macerada e polida por muitos anos de pensar nela.
A discussão entre os convivas era acesa, sempre. Não tinha preparadas estas eloquentes proposições de antemãoe e muito menos ia a esses jantares à espera do melhor momento para as proferir, não. Apesar de o ser, também não as dizia por ser arrogante, como se fosse necessário juntar alguma coisa às minhas idiossincracias.
O que não se evitava nunca era o momento em que me aborrecia de morte. Em retrospecto, sei que não era nenhum aborrecimento, mas sim uma descarga compensatória do meu corpo ao sentir chegar um momento crucial do evento. Após a fome estar saciada e o álcool ter começado a fazer zumbir o cérebro como uma máquina bem oleada a alta velocidade, era a altura em que o debate inocente até ali de qualquer veleidade de se imiscuir em assuntos tão pouco apetitosos, dedicava toda a sua atenção àquilo que os presentes acreditavam ter que partilhar do mais profundo das suas almas, com toda a urgência, o seu credo. Ou pelo menos de tão profundo quanto conseguiam chegar.
Como odiei esse momento. Sentia-lhe o cheiro, a progressão, como uma fuga. Nunca me senti preparado para tamanha violência.
E assim, na maior parte das vezes, essas banalidades perfeitamente treinadas e à distância de mais um golo de vinho tinham o efeito desejado: dizia-se mal e bem, concordava-se, discordava-se, discutiam-se-lhes os méritos e os deméritos, mas sobretudo, sobretudo nunca comigo.
