Não percebi
Primeiro: O Ministério da Cultura mandou fechar o Terràvista durante dois dias porque, ao que parece, tinha páginas de propaganda nazi e pornográfica (uuuuuh). Segundo: A FFE protestou vigorosamente no seu site e nos media e ameaçou o ministro com um processo. Foi um fartote. Houve FFE por todo o lado. Terceiro: O ministro resolveu então que o Terràvista podia continuar (com medo do processo?), mas sem ser patrocinado pelo Governo. Formou-se uma misteriosa Associação Terràvista que explorará o site.
Até aqui percebi (quase) tudo. Tenho é umas perguntas para todos os envolvidos.
Será que o ministro patrocina um site como o Terràvista esperando que todos vão ser muito bonzinhos e bem-comportados? E já agora, porque é que o link para o Terràvista continua com tanto destaque no site do Ministério da Cultura? Então não deixaram de apoiar?
E percebi bem? É o IPACA quem financia o Terràvista a partir de agora? Então o governo continua a patrocinar? É só porque o dr. Carrilho já não acha piada e agora largou a batata quente em cima do eng. Costa Ramos? Expliquem-me. O que é que lhes passou na cabeça? “É pá sabes, eu sou socialista e puritano, e além disso descurti esta cena da internet. Tu que és nazi e pornógrafo e até gostas de computadores, fica lá com isto que eu já não tenho paciência”
Porque é que todos se enervam tanto com a posição do ministro? O site é o brinquedo dele, pode fazer com ele o que bem entender. Ah não, não me falem em dinheiro dos contribuintes. Se vamos por aí então quero saber porque é que ninguém protesta quando os ministros decidem que é melhor andar de BMW do que de Fiat 600.
Porquê esta histeria com a liberdade de expressão? O que é isso? Estão bêbados ou quê? Então recebem “liberdade de expressão” ao conta-gotas, dispensada pelo governo e ainda se queixam? Se querem “liberdade” dessa, comecem por sacudir o sistema das vossas costas. Parecem prisioneiros a protestarem porque querem flores nas celas. Há milhares de sites grátis na net. Não é preciso um domínio pt para que isso sirva de “instrumento de propagação da lusofonia” (como se isso fosse alguma nobre missão).
O que raio é a FFE, além duma associação de indivíduos à procura de exposição nos media? A comissão instaladora é toda composta por jornalistas (e não só, mas já lá vamos) que podem até ser muito bons, mas enfim, são jornalistas (jornalista, s. m. e f. , pessoa que, por profissão, escreve em jornais, semelhante mas não sinónimo de político, s. m., pessoa sobre quem os jornalistas escrevem).
Proteger o ciberespaço? Eu não quero o ciberespaço protegido, muito menos pela FFE. Não é lá porque bebem uns copos como eu, ouvem música como eu e são tesos como eu, que isso lhes dá automaticamente o direito de me representarem. Reguladores já existem que chegue e sobre. O que menos faz falta são os reguladores dos reguladores. É curioso como são parecidos os que têm o poder e aqueles que o querem.
O poder não é dispensado por quem o tem, é-lhe tirado ou não lhe é reconhecido. O protesto legal é , apesar de tudo, uma vénia ao poder.
E finalmente o que eu não percebo de todo:
O sr. Luís Soares trabalha no Ministério da Cultura. (ECTA, CIMA, IPACA, ICAM e eu sei lá mais o quê). O sr. Luís Soares é também membro da comissão instaladora da FFE que ameaça processar o Ministério da Cultura. Como ele diz: “I’m a million different people from one day to the next”.
Já se demitiram ministros por menos do que isso, como tão bem defende o Paulo Querido, no Expresso. E então? O Luís Soares vai emitir um comunicado, tomar uma posição (eu cá gosto de posições). Vai demitir-se da FFE? Do Ministério da Cultura? Deixem dar um palpite: nem dum sítio nem do outro.
Afinal, pensando bem, não é preciso explicar nada. Já não quero.

