Birras
Isto agora é arte? É esta a grande dor da introspecção? O potente domar das palavras?
Meninos publicitários a fazerem birras. Indulgentes de merda.
Isto agora é arte? É esta a grande dor da introspecção? O potente domar das palavras?
Meninos publicitários a fazerem birras. Indulgentes de merda.
Já tinha decidido deixar de criar conteúdo neste site, deliberadamente, mas hoje li mais um artigo sobre “blogoesfera” portuguesa (mas quem é que inventa estas palavras?) que me intrigou profundamente. É mais um daqueles que se escrevem a intervalos regulares sobre como o nosso portugalzinho não perdeu afinal o comboio de nada do que se passa de importante no mundo. Já os havia do tempo das BBS’s, continuaram quando apareceram os primeiros sites, mais alto bradaram quando esses sites se transformaram em “blogues” (!) e por aí fora, sendo a questão do momento o Twitter.
Importante é aparentemente que o número de utilizadores portugueses do Twitter disparou. Ah bom? Eu não uso o Twitter, pelo menos não com este bios, portanto que fique desde já estabelecido que não faço ideia do que estou a falar. Nem de como é que essa preciosidade estatística é importante nem de como é que se salta disso para destacar quais as figuras “públicas” presentes neste aviário.
A bem dizer, até suspeito. Não conseguimos ultrapassar-nos. Mesmo quando o debate, a discussão, a troca de ideias é iniciada fora do sistema mediocrático (tanto dos media como da mediocridade) em que vivemos, a nossa insegurança, a nossa necessidade de subserviência, (do salazarismo herdada e nunca abdicada) obrigam-nos inevitávelmente à validação e entrega desse debate às figuras “públicas”. E como só existe quem aparece, abdicamos assim da nossa própria existência consolando-nos com as habituais e abstractas palmadinhas: somos pequenos, mas somos tesos, caneco!
Por exemplo, em que é que me interessa que os humoristas nacionais tenham entrado no Twitter? Que raio de validação é essa? O que é que há de admirável em terem percebido, depois de toda a gente, que têm mais um canal à sua disposição para serem mais “públicos” ainda? Isto sem falar da designação profissional em si; o nosso humor assenta, na sua maioria, na premissa de que o português é burgesso, sim, mas que há sempre um burgesso mais burgesso do que ele, numa glorificação do grosseiro e do kitsch. Qual será o tweeter admirável de amanhã? O Hermann? O Camilo? Os Malucos do Riso? Tenham dó.
Quanto aos media tradicionais, em morte lenta, agarram-se ao que houver para poder continuar a afirmar o seu (auto infligido) desígnio cósmico de fazedores e desfazedores de opiniões e personalidades “públicas”. Ainda não perceberam que o relutante reconhecimento de uma weltanschauung que os transcende (por definição) nos seus programas não os torna integrados com o fluxo. Equivale a tentarem beber toda a água de mil cascatas com uma colher de chá. A TSF faz o Mundo Digital? A TVI usa Google Earth? o Carlos Vaz Marques, a RTP e a SIC tweetam? A inovação é tal que até me engasgo. Tenham juízo. Pensando melhor, isso não é sequer possível.
Para os políticos, esses produtores de barulhos de autoclismo resultantes de uma curiosa simbiose entre um bordel e uma casa mortuária, não seria de esperar tal destaque. E mais não me merecem do que aquilo que diz Auberon Waugh: “The desire to hold political office should of itself be reason enough to disbar one from even running“.
Enfim, elites. Grupos, comités, chefes, directores, adjuntos, eleições. Sistemas. Nomes. Pessoas cuja legitimidade “pública” é resultante apenas e únicamente da sua vontade de o serem e que são famosos porque são famosos porque querem ser famosos.
Somos pequeninos, ‘tadinhos. Mas o Bruno Nogueira no Twitter vai certamente voltar a pôr-nos no mapa. Isso, e o cão-de-água português na Casa Branca.
Não foi. O que parecia que ia ser não foi. Dado que até agora não foi, nem isso nem nada, a pergunta que fica é se alguma vez vai ser. Isso ou qualquer coisa.
E não é já tardíssimo?
Fica assim claro que o caos não é uma estratégia. Mais, o que de bom tem é perigoso. Adia o desenlace. Arrasta-o.